Entrevista com a pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento Isaura Botelho

26/08/2006, 14:57

 

Isaura Botelho

A professora e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CBAP) de São Paulo, Isaura Botelho, esteve em Aracaju para ministrar o primeiro módulo do Curso de Gestão Cultural, promovido pela Rede Sergipe de Cultura para gestores de todo o Estado. Com doutorado em Ação Cultural e Pós-doutorado sobre “As pesquisas sócio –econômicas da área de cultura”, a pesquisadora abordou o tema “Cultura e Política Cultural”, que traça um panorama do estado atual da implantação de políticas pelo Governo Federal, com foco especial nas ações integradas, além de contextualizar as ações do Estado no campo da cultura e alguns modelos internacionais. Confira a entrevista que Isaura Botelho concedeu a Rede Sergipe de Cultura.

 

 

RSC – Qual o panorama atual de políticas públicas em nível federal para a Cultura?

IB – Há uma diversidade muito grande de políticas. O Ministério da Cultura tem investido pesadamente, em primeiro lugar, na propagação da idéia de que a cultura necessita de políticas públicas como em qualquer outro setor. O Ministério da Cultura, na verdade, tem muito problema de implementação. Encontraram o Ministério completamente destruído. Isso prejudica tanto as portas que já foram abertas, que o Ministro Gilberto Gil tem tido dificuldades em relação a uma política onde a questão do direito e da cidadania seja uma prioridade.

 

RSC – Como as manifestações populares dos pequenos municípios podem ser beneficiadas com essa nova visão de políticas públicas?

IB – Nesse primeiro módulo do Curso de Gestão Cultural, que trata da relação Estado-Cultura, a questão principal é ajudar a esses gestores a pensarem, em primeiro lugar, que a cultura faz parte da vida da população em todas as suas dimensões e quanto menor o município, mais claro fica essa necessidade de que a cultura seja vista como o foco das políticas de governo. Claro que isso não é o que acontece. Geralmente as pessoas tendem a enxergar a cultura no terreno da cultura legitimada, as belas-artes. Mesmo os gestores mais bem intencionados, se esquecem de que para você pensar uma política cultural para o seu município, precisam ver a realidade desse município; a produção econômica, quais são as características dessa população, quais são os problemas que afetam, por exemplo, os grupos folclóricos. A maior parte desses grupos tem grandes problemas em termos de qualidade de vida, de sobrevivência porque são pessoas muito pobres. Nós tivemos aqui um relato de uma experiência em um município sergipano que trabalhou a questão dos grupos culturais da forma mais adequada: ao invés de pagar um cachê irrisório, por que tem grupos que são enormes e aquele dinheiro não vai significar, investiu na qualidade de vida daquela população, auxiliando numa economia sustentável, na agricultura, pegar o entorno da vida dessas pessoas. Geralmente estas manifestações de cultura popular, desses grupos que se mantém até hoje e, aqui em Sergipe é de uma riqueza muito grande, são festas ligadas ao ciclo produtivo e religioso na vida dessa comunidade. Você passar a remunera-los, talvez do ponto de vista cultural, não seja a forma correta, mas sim, dar condições de melhorar a qualidade de vida para que essas manifestações continuem ligadas diretamente a esses ciclos de vida.

 

RSC – Existe algum país que possa servir de modelo em termos de políticas públicas culturais?

IB – Tem países que possuem políticas muito fortes. Uma política é sempre pensada a partir da história local, das condições locais. Então conhecer, estudar e procurar se informar é interessante porque você pode queimar etapas. Nesses dias aqui, a gente viu que na conversa entre os municípios existem soluções que podem ser aplicadas a outros. Na verdade o que importa é aumentar o repertório de informação. Não acredito em um modelo, até porque as condições do país são muito especiais, mas, a troca de informação sempre enriquece.

 

RSC – A senhora acha que falta comunicação entre os gestores culturais dos municípios para o fortalecimento de uma ação integrada?

IB – Falta. Por exemplo, nós temos no Curso gestores culturais de municípios que estão próximos, com questões comuns e as pessoas não sabem como é a realidade do vizinho. Em princípio, eu que venho de fora imaginaria que todos soubessem muito a respeito desses municípios que são tão próximos, mas não é verdade. Cursos desse tipo, que permitem esse encontro, muitas vezes é mais rico do que você ficar buscando informações em livros e etc para conhecer a realidade.

 

RSC – O poder público tem a obrigação de ter um cuidado maior com essas pessoas que perpetuam a cultura popular?

 

IB – Essa preocupação tem que ser de governo como um todo. A Cultura sozinha não tem como agir sobre a qualidade de vida das pessoas. Ela cumpre um papel na medida em que ela permite a expressão, mas, ela não tem como ter ingerências sobre outras áreas em que a administração compartimenta em escaninhos.

 

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