ESCURO! SALA! EMOÇÃO - Antônio da Cruz

19/01/2006, 17:36

No jargão cinematográfico, a expressão “luz! câmara! ação!”  que assinala  o início da filmagem de uma seqüência, poderia ter o seu sentido invertido no ato de exibição do filme. Embora a projeção somente possa ser realizada com a luz vinda do projetor. É da antítese: ausência dela, que se dá a síntese-mágica da formação da imagem na tela branca, a qual encanta o mundo desde 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Voulevard des Capucines em Paris, até  hoje, nas casas de exibição das metrópoles que mais parecem palácios de consumo de imagens, pelo fato de estarem associadas ou dentro de centros de compras e com mega-infra-estruturas de conforto. É a reação para superar a crise prolongada, gerada pelo uso massificado da televisão, que no Brasil se iniciou na década de 70, vindo a aniquilar os cinemas de rua.

Do gesto mais primitivo ao mais evoluído, feito no sentido da comunicação, envolveu o que se pode chamar a essência do fazer: a Arte. Assim dizem: a arte da diplomacia; a arte da guerra, a arte da medicina, a arte do cinema.... Pode ser um simples ofício, mas esta é a forma das pessoas se expressarem para deixar bem caracterizado o primor no ato de fazer qualquer coisa. Nisto, haverá sempre o deslumbramento do espectador provocado pela alma criadora do “artista”. No ato de fazer diversão, a alegria, a tristeza e principalmente o medo têm sido usados com bastante Arte.

Os filmes, em boa parte, fazem derramar lágrimas, seja numa cena antológica do beijo, após os protagonistas vencerem todas desventuras, ou naquela pitoresca, onde o drama humano se faça exacerbado de tristeza. No entanto, sabe-se que, filmes cuja carga emocional é o medo, costumam encher cinemas. São os filmes de terror. Ele, o medo, pode está presente na mais simples aventura à horripilante história, seja no perigo do mocinho cair no despenhadeiro; no suspense da porta abrindo e não se sabe qual ameaça está por trás dela; no gesto do assassino ao surpreender a vítima, ou ainda no pânico de multidões castigadas pelas catástrofes, entre tantas. As cenas consagradas, mesmo que tenham virado clichê, dada a repetição, ainda provocam no espectador a sensação de que ele é o personagem sujeito ao perigo.

As sombras, o ângulo da luz de baixo para cima no rosto dos atores e suas expressões faciais sinistras, por si já são medonhos. Cenas grotescas de membros decepados andando autonomamente, cabeças falando fora do corpo, oferecem um visual nauseante, estranho e aterrorizante. 

A escuridão da sala de projeção desafia o espectador, no ato de recepção da imagem, a por para fora reservados sentimentos. Lá, cada indivíduo está só. É isto que o escuro da sala sugere. O cinéfilo pode desviar-se do medo ao se entusiasmar em entender como o diretor programou e providenciou a execução de determinado efeito especial, como andou o desempenho dos atores, se houve inovação no processo de enquadramento... Isto o faz diferente do espectador mediano por não se deixar envolver a ponto de esquecer um pouco as sensações.

O espectador comum, no cinema, quer as emoções do enredo e principalmente aquelas oriundas dos efeitos sonoros incidentais sincronizados com imagens súbitas. Conhece-se bem o quanto é comum pessoas se levantarem da cadeira diante de uma cena de impacto visual forte e repentino.

Comparando: o mesmo não acontece diante da telinha, principalmente se a sala estiver iluminada e o manipulador dos botões do receptor de TV tem o controle remoto à mão controlando o som, o brilho e o contraste da imagem, assim ele valoriza ou não, determinada cena segundo a sua opinião. O objetivo, neste caso, pode ser também o de vencer o medo contido no seu âmago, que ele não conhece a origem, senão, talvez, a etimológica: mètus, do latim, mas aprendeu a trabalhá-lo alimentando a curiosidade como num ciclo que se fecha nos extremos da vida e da morte. Assim vê-se a uma história com figuras animadas. Se abaixado o volume do som para não incomodar o parente que está dormindo no quarto ao lado, poderá se perder muitas falas importantes dos personagens, salvo quando for uma fita de vídeo, por ser possível rever o diálogo. Atualmente este controle da telinha é bem aceito. A questão é comodidade, avanço. Mas, este recurso provoca certa descaracterização à fita. Retira possivelmente oitenta por cento da emoção. É muito diferente de estar diante da gigantesca tela que envolve de tal forma o espectador que lhe oferece poucas chances de se distrair olhando para o lado, com o som crocrante da pipoca amassada pelos maxilares e principalmente de perder o fio-da-meada, pois não há a interrupção do chato comercial .

O cinema poderá vir a ser bem mais interativo do que a TV. O raio laser, a halografia a fibra ótica, mais os recursos da informática, devem se somar aos clássicos conhecimentos da ótica para fazer o cinema do primeiro século dos anos dois mil. Mas, a proposta do cinema contemporâneo neste início de milênio ainda é ser basicamente uma arte do diretor para o público, apresentando uma proposta de trabalho com suas peculiaridades e recursos básicos do cinema tradicional tendo a película de acetato como suporte.

Os fenômenos catastróficos e os acidentes, provocados por atividades de mal feitores, ou falhas humanas; as figuras bizarras, monstros diabólicos, assassinatos em série, tudo perturba o telespectador, num crescendo. Tanto esses personagens como o elemento da platéia estão sob o controle do artista-diretor do filme. Os vilões e mocinhos, simples fruto da sua criação, terão vida enquanto perdurar o filme. O espectador, por colaborar com o efeito hipnótico das imagens e mergulhar naquele universo de fantasia, permanecerá com as imagens gravadas no seu cérebro por um bom tempo como algo fantástico. Mesmo sabendo da idade do cinema e das inúmeras vezes que foi a ele.

Submeter-se a este medo de cinema é excitar a imaginação de forma mais fácil do que na literatura ou diante de um quadro pintado, pois no cinema a imagem está completa. As formas têm volume, brilho, cor e mobilidade, o que possibilita variação de ângulos e perspectivas incríveis, com qualidade da imagem impecável. O tamanho da tela torna-o um instrumento poderoso. Esta dimensão e o poder de convencimento da história substituem as dificuldades reais de se ir a locais inacessíveis e de jornadas exaustivas aventureiras no campo; faz a mente indagar da possibilidade de existirem seres extraordinários dotados de poderes maléficos com os quais a superstição inunda o subconsciente e inconsciente humanos desde a infância de cada indivíduo e da origem da humanidade.

Nunca se soube de casos de enfarto no cinema ou se existem, são tão poucos que nunca chegam a provocar escândalo. Segundo os especialistas, as palpitações provocadas pelo medo nada têm em comum com o enfarto do coração. Uma coisa é certa: o coração de muita gente dispara com bastante freqüência e intensidade. Também não há casos de histeria registrados, decorrente precisamente do filme, salvo quando expressadas indignações de ordem moral, política ou social sobre filmes, polêmicos. Os caso isolados, hoje raros, acontecem com aqueles que nunca ouviram falar em cinema.

O espetáculo do medo não tem poupado recursos, principalmente nos filmes de ficção científica nos quais as diabruras da imaginação voam. A possibilidade de existirem seres extraterrestres mutantes com ciclo de reprodução complexo e onde dentre as etapas desse ciclo esteja incluso um ser vivo como hospedeiro; outros que roubem a alma das suas vítimas e assumam sua personalidade; vírus gigantes com comportamento humano são hipóteses alimentadas pelo crescimento real da ciência e da tecnologia, o que produz verossimilhança, induzindo os terráqueos a aumentarem sua crença na existência de vida em outros planetas, mas, com a agravante de tais criaturas possuírem características aterradoras. Neste ponto, a ficção científica afasta-se da ciência equilibrada entre o empirismo e o racionalíssimo, para ser mais especulativa possível com adição da fantasia do medo, explorando ao máximo a capacidade de aceitação, pelas pessoas comuns, do desvio dos parâmetros da realidade. Mas continua essa mesma realidade inspirando autores e diretores a “viajaremneste mesmo rumo quando se baseiam em pesquisas reais dos laboratórios de informáticas e nas reações químicas de elementos radioativos, por exemplo, para criarem seus monstros horripilantes e em situações igualmente incongruentes.

Autores cujos livros viraram roteiros cinematográficos tornaram-se milionários, tamanho o sucesso desses livros, e principalmente depois de bem adaptados para roteiros cinematográficos. É no cinema onde o conteúdo do livro pode assumir a sua feição mais palpável. Exibindo o lado sinistro em cores e sugerindo até movimentos que os olhos não podem alcançar e a mente reluta em aceitar.

Discursar diante de uma platéia desconhecida pode provocar muito mais pavor do que ver certos filmes medonhos. Se todos tivessem essa avaliação certamente entenderia bem melhor porque entra num cinema para assistir a um filme de terror. Num auditório o público é real. A sua falha de memória, o tremular de suas mãos podem sugerir falta de conhecimento do assunto, o que representa insegurança ou incompetência para estar naquele lugar com tamanha responsabilidade. Aquele público poderá ser agressivo ao sentir-se lesado por terem anunciado uma coisa e lhe apresentarem outra: um orador inapto. Num cinema, o indivíduo está preservado, apesar de poder imaginar está “sentindo na pele” o que o personagem está vivendo. É certamente por ter consciência de estar preservado das situações que o sujeito larga-se no cinema, entregando-se ao conforto da poltrona para ver o filme. A atividade é de distração: ele desarma-se. Daí, naquelas cenas surpreendentes: sustos! saltos! O diretor sabe. É com isso que ele brinca.

O encantamento pelo inusitado, impulsionado pelo “medo respeitoso” levou o ser humano à adoração da natureza como força criadora capaz de todas as realizações entre elas as “punições” como conseqüência das “desobediências” a essas mesmas forças misteriosas. A consciência deste medo e da origem dele se deu evidentemente na medida em que aconteceu a evolução da espécie.

O desconhecido é essencialmente provocador de receios e ansiedades. Se medo e curiosidade são antagônicos, no sentido de fazerem pessoas tomar posição, pode-se dizer: o medo que detém, é atraso; a curiosidade satisfeita é avanço. Um indivíduo dito primitivo, que ande nu, poderá sentir pavor só em se imaginar dentro de uma roupa, mas, possivelmente, sentirá atração por aquela novidade. A natureza impõe o medo sob seus vários aspectos: o trovão, o raio, a tempestade, o vulcão, o furacão e o terremoto. Os possíveis estragos por eles provocados são imprevisíveis e aterradores, principalmente por não se ter controle sobre tais forças descomunais vindas das suas entranhas. São essas forças misteriosas que, na imaginação, sugerem reerguer, até em massa, mortos, zumbis e outros seres, dando-lhes vida eterna e forças descomunais, tornando-os indestrutíveis. Ou!... Para o mocinho, quase, indestrutíveis.

Não há dúvida que, para satisfazer a curiosidade e espantar o medo, a comunicação foi, e continua sendo fundamental. O cinema enquanto meio de comunicação de massa concede o medo em doses e a oportunidade de vencê-lo, ainda que não seja por inteiro.

O medo é maior quanto mais intimista for a cena. A solidão do personagem e o que pode lhe acontecer, quanto mais comparada com aquela que viverá o telespectador fora do cinema, mais inquietação causará. A cena longa de um corredor silencioso e a repentina aparição de uma figura obscura, não contida no que poderemos chamar de configuração imagética imediata, mais um ruído perturbador, gera o sobressalto de quem está desavisado pela tranqüilidade da cena imediatamente anterior. É novamente o uso da dialética, em que situações extremamente opostas resultam numa terceira. Neste caso, a síntese é o susto: emoção súbita que faz o cardiógrafo registrar no gráfico, instantaneamente, o pico da batida cardíaca. Neste caso, o tempo entre a recepção e a assimilação da imagem, que se pode denominar de tempo morto, é demasiadamente curto, impedindo de o olho humano captá-la por inteiro e o cérebro decodificá-la, a ponto de se lembrar que está diante de uma fantasia. As cenas feitas na penumbra contribuem neste sentido e têm também o propósito de causar estranheza, fazendo combinação com o ambiente nebuloso do subconsciente humano. Como nos sonhos, em que rostos, lugares e situações são indefinidos. As coisas são amorfas: o contorno, o conteúdo, a sombra e o brilho quase se confundem ou não existem. O tempo sofre toda sorte de variação ilógica e os personagens mudam de fisionomia tendo a mesma identidade, ou vice-versa, sem controle do elemento que sonha.

Pode-se dizer que, mesmo o diretor não considerando o seu estilo surrealista, a linguagem dos filmes de terror tem como ponto forte esta escola, dada a desestruturação da imagem dos personagens, como figuras irreais saídas de pesadelos.

A principal linha trabalhada com objetivo de mexer no horror implícito na alma do telespectador, e de grande aceitação, apesar do lugar comum, é a da psicose dos personagens. Os roteiristas e diretores exploram as psiconeuroses humanas provenientes do inconsciente de vários problemas. As neuroses e obsessões em todos os indivíduos. Na tela um sujeito doente. Na sala escura do cinema, o telespectador com a alma angustiada pelos crimes daquele vilão que não dá chances para a sua vítima, geralmente indefesa. No centro desta questão, o medo: das vítimas e da platéia. Ali se vê um ser humano sendo o predador do próprio ser humano, caçando o outro com uma presa a ser devorada. Diferente da “aceitação” das mortes provocadas pelos heróis nas guerras, ou revoluções e por policiais de ruas, por mais cruéis que sejam. Aquela morte que espreita a vítima num quarto, numa viela escura, não tem apoio do clamor público, nem foi respaldada por uma decisão política num parlamento para defesa de uma demanda econômica, política ou social. É uma morte intimista, praticada a amiúde, por estrategista único, e com objetivo tão obscuro quanto seus métodos. Num filme de terror, a morte é carregada de simbologia, associada aos primórdios da espécie humana. Eras esquecidas pela memória. Pode também ser instigantes, desafiando todos a acreditarem que no futuro o sujeito se deparará com algo incompreendido pelos limites do conhecimento humano e que o destruirá ou o devorará com propósito igualmente tenebroso.

Na Antigüidade a loucura era um fenômeno diabólico. “A forma como o sujeito estava pagando seus pecados”. Ganhou “status” de doença mental na revolução francesa. Entre aquela e esta situação atual, de ser anomalias e desequilíbrios nervosos, o cinema se reporta a estas e a todas intermediárias. Os valores estéticos acadêmicos, incluindo: o “tudo que é belo é bom” caíram por terra. O personagem pode ter uma ótima “embalagem” e um “conteúdo” horripilante, ou seja, o psicopata pode ser um atleta de fisionomia angelical.

Um passo no escuro qualquer remete ao desconhecido. O ser humano continua esta aventura chamando para si desafios, ainda que sejam ilusórios. Há nos mistérios a provocação da curiosidade que somente será satisfeita quando o próprio mistério for desvendado.

Segundo os códigos do padrão cinematográfico, na solução maniqueísta final também terá a morte do maníaco. A platéia respirará aliviada. O medo vivido durante a exibição do filme estará vingado. Cuidado! O monstro expirará em convulsivo ataque ao herói num último instante, pregando o último susto antes de morrer. Este é também o último clichê do filme. As luzes retornam e vem o alívio. Na rua não se sabe com quem vai se deparar!

N A.: este texto foi elaborado originalmente para a Revista Plano Geral do curso de cinema organizado pelo Cine Clube Fantomas e o SATED, em  Aracaju no mês de setembro de 1997, mas não foi publicado, sendo substituído por O Maniqueísmo e o Pragmatismo no Cinema, deste mesmo autor.

*Antônio da Cruz é Artista Plástico e Cenógrafo.

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