Artigo - Ode à Vaca (Antônio da Cruz)

21/11/2006, 18:42

Ode à Vaca -  Antônio da Cruz (Colaborador)

Muita gente foi ao lançamento do livro de Paulo Lobo. Isto foi muito bom.
Saboreamos suas crônicas agora no livro, como as sobremesas leves que se
pedem bis.
Paulo Lobo e o seu livro nos fazem refletir sobre estes recursos que os
literatos utilizam para dizer, de forma divertida, coisas não-ditas em
situações sisudas. A crônica jocosa tem a sua particularidade e seu público
cativo.
Nos romances e contos autores põem na boca dos seus personagens diálogos
risíveis, ásperos ou altamente filosóficos; engendram situações embaraçosas,
polêmicas ou criam facilitação para vida das suas criaturas. Num outro
aspecto, pseudônimos, psicógrafos e heterônimos, usados conscientemente por
autores inteligentes, produzem encantamentos. São elementos constituintes de
uma estruturação literária orgânica poderosa entre o autor o seu alter ego.
Dessa reflexão veio à lembrança um dia de sábado, quando em meio a um grupo
de amigos estávamos no mercado, no restaurante de Zé Américo, de Campo do
Brito. Ali, um senhor sentado próximo à nossa mesa puxou conversa. Turista
mineiro, mora e trabalha em Belo Horizonte; beira os 60 anos; cabelos
grisalhos. Antes resmungava. Estava insatisfeito com algo ou alguém, que, de
início não deu para entendermos. Quando iniciou a conversa com o grupo
disse:- “É uma vaca!”. Também não disse quem era a vaca. E prosseguiu com
gestos largos. – “Adora aparecer. Se pudesse escreveria o seu nome nas
nuvens para o mundo saber que ela existe”. Na nossa mesa começou um novo
colóquio. –“É cara, tem gente que é de uma estupidez sem fim. Outro:
-“Porque ele está se referindo a alguém desta forma?”. –“Ah, meu!
Independente do sexo tem gente que parece mesmo uma vaca. Tenta explicar a
petulância com a arrogância e esta arrogância com a ignorância, como se a
falta de conhecimento conseguisse explicar alguma coisa”. –“Pois, eu acho
que vocês estão equivocados”. Disse um contrário. –“ Comparar pessoas
estúpidas com vaca é uma injustiça. Vejam: o boi é o estúpido e o
exibicionista; diz-se carne de boi, nunca de vaca; no mercado a cotação é de
arroba do boi gordo; o gado é bovino, ou seja, termina o boi sendo o
porta-voz da vaca”. A vaca fica à sombra do boi, obscura, ninguém fala dela.
A vaca até pode dizer que ama o boi, o bezerro, e até mesmo o fazendeiro. É,
ela tem sentimentos! – “Ih! Cara! Tá apelando”. -“A vaca? É, ama sim. Mas
não recebe a atenção e a fama que o boi tem. Nas vaquejadas o boi é quem
brilha, de forma cruel, na arena, derrubando e esmagando o vaqueiro”. O
defensor da vaca disse que poderia até lhe fazer uns versinhos rimados e
sacou, de repente, uma quadra:

“Vaca deste Sergipe que o Brasil ignora
Mesmo que tu de quatro patas rumine
A ti, erguerei com pompa e glória
Monumento ereto com teu nome insigne”

O senhor da mesa ao lado aplaudiu com entusiasmo. Perdeu o ar rabugento e
disse: -”É, você tá certo! Perdoemos as vacas. Elas não sabem o que fazem.
Mas, a minha vaca em questão é uma personagem vilã de um romance que estou
escrevendo. Viajo pelo Brasil para incrementá-lo com casos reais”. O grupo
de amigos se interessou pelo personagem, o romance e o autor. Ele falou de
si e explicou que escrevia través de heterônimo, mas, não podia revelá-lo. A
conversa varou a tarde ao som do forró, com o ego e o alter ego.
 Se o pseudônimo é uma ficção singular e divertida, onde o autor usa um nome
suposto - perfeitamente aceito na literatura - o heterônimo é outra mentira
espetacular e bem arquitetada, uma vez que se trata de um autor também
imaginário, mas, com identidade própria, ou seja, biografia, personalidade e
estilo distintos do seu criador. Essa alteridade torna muito mais lúdicas e
férteis as possibilidades do autor.
A ficção e a realidade um dia se encontram publicamente. O caso Paulo
Lobo/Apolônio Lisboa, é um bom exemplo. Os dois foram vistos na Sociedade
Semear, na noite de autógrafo. Mentira? Uma ova! Não viu quem não quis.
A todos, desejo boa leitura das “Cartas do Apolônio”.

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