CENTRO DE EDUCAÇÃO E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS
NÚCLEO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
HABILITAÇÃO EM RADIALISMO E TELEVISÃO
A MÚSICA NAS DANÇAS E FOLGUEDOS
DO FOLCLORE SERGIPANO
São Cristóvão/SE
2001/2
Trabalho realizado como exigência para obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Radialismo e Televisão pela Universidade Federal de Sergipe
Dedicatória
A minha querida mãe Beatriz, pelo exemplo de vida e ao meu noivo Cláudio-Alexandre pelo apoio e companheirismo imprescindíveis em todos os momentos.
I - APRESENTAÇÃO
Assim, nascida de forma simples, humilde, sem nenhum aparato técnico a música folclórica pertence à comunidade que a faz sobreviver. E a sobrevivência se faz pela transmissão oral e prática sem conceitos ou teorias. Ao se transmitir, ocorrem modificações, fonte de inovações e de contribuições do povo. Às vezes essa chamada contribuição coletiva parte de um indivíduo, geralmente um condutor autêntico do folclore´. (Aglaé Fontes de Alencar)
Há uma música no Reisado do Mestre Gervásio que diz o seguinte: “marinete nova do pneu azul quando for me leve para Aracaju, marinete nova do pneu de aço quando for me leve para o palácio”. Neste documentário radiofônico procurei embarcar nesta marinete que tem como destino as danças e folguedos do folclore sergipano nas suas manifestações mais populares. Fui às ruas das cidades sergipanas que ainda mantêm uma tradição folclórica e gravei o canto desta gente simples, mas que traz no coração o amor pelas danças e folguedos que embalaram gerações e, hoje, tão remotas são suas origens que, muitos mestres de grupos não sabem dizer quando surgiram estas canções do folclore popular.
Os grupos folclóricos de Sergipe sempre me fascinaram. Acompanhando nos últimos cinco anos o Encontro Cultural de Laranjeiras, durante os simpósios e as apresentações nas ruas, observei o quanto esta tradição, passada de pai para filho, é importante para cada brincante no momento da apresentação. Esta paixão estampada em cada rosto, muitas vezes sofrido por causa da vida dura e da pobreza, me fez concluir que há um significado muito forte deste tipo de “brincadeira” para estas pessoas e que a valorização desta manifestação cultural ainda é muito pequena. Folcloristas escrevem livros, mas as obras não são divulgadas para o público, principalmente estudantil. Por isso que, durante estes quatro anos de universidade, sempre quis fazer um projeto de conclusão de curso que ajudasse a divulgar a cultura popular do Estado. A partir daí, surgiu a idéia de um documentário, inicialmente de vídeo, mas depois de uma experiência na emissora de televisão em que trabalho, resolvi colocar como enfoque a música nas danças e folguedos.
Na TV Caju, comecei a editar um programa semanal chamado “Andanças do Folclore Sergipano” apresentado e produzido pela folclorista e professora Aglaé Fontes de Alencar e participação do diretor do Grupo Teatral Mamulengo de Cheiroso, Augusto Barreto. Esta experiência me proporcionou entrar em contato com a música e história dos grupos do Estado.
A partir daí comecei a trabalhar a idéia de um documentário radiofônico sobre a música e toda sua representatividade dentro das brincadeiras.
As dificuldades em fazer um trabalho de resgate musical das danças e folguedos do folclore sergipano começam com a falta de fontes, de registros sonoros dos grupos. Em poucos lugares ainda se encontra material bibliográfico sobre os grupos folclóricos. Mas o meu objeto de interesse, gravações de áudio, foram raras. Fui às cidades do interior do Estado como Japaratuba, Pirambú, São Cristóvão e Laranjeiras, gravar os grupos durante as apresentações
É importante ressaltar que algumas músicas deste documentário são de Cds lançados pela Secretaria de Educação do Estado de Sergipe. Mas as músicas que procuramos enfocar foram gravadas enquanto os grupos se apresentavam.
Enfim, este documentário é uma tentativa de mostrar, principalmente nas escolas, a música nas danças e folguedos do folclore sergipano. Que os grupos são muito mais do que evoluções e roupas coloridas e, como define o folclorista João Ribeiro, o Folclore é
“essa psycologia collectiva ou ethnica, alma do grupo, alma da raça, é o fundo commum e a camada primigenia que explica e define o caracter especial de cada povo, no seu tríplice aspecto psychico, anthropologico e historico”
II – JUSTIFICATIVA
“O Folclore é um velho espelho, diante do qual o povo procura a sua identidade cultural” (Luis Antônio Barreto)
A massificação da cultura está deixando pouco espaço para as manifestações populares. Esta alienação promovida pelos meios de comunicação de massa, está deixando Sergipe cada vez mais distante da sua cultura popular, exatamente pelo fato de que esta cultura do povo não “vende”, não rende lucros comerciais. Para constatar este fato, é só observar o descaso do poder público em conservar a memória dos grupos. Muitos foram extintos. Não há incentivo para a preservação dos que restaram, os que não foram extintos sobrevivem graças à abnegação de seus mestres que passam para seus descendentes a tradição da brincadeira. Também os grupos folclóricos esbarram na falta de informação. Só é divulgada a existência de grupos folclóricos do Estado quando há encontros culturais nas poucas cidades do interior que ainda preservam esta tradição. Nas crianças e adolescentes, principalmente de Aracaju, a desinformação é grande. Basta perguntar a alunos de escolas, tanto públicas quanto particulares, se conhecem os grupos folclóricos de Sergipe, com certeza poucos vão dizer que sim ou, no máximo, pela televisão quando há encontro cultural nos municípios do Estado. Este é um fato preocupante observado durante a minha pesquisa.
Evidenciei, também, a grande dificuldade em conseguir material sonoro, gravações de grupos.Um dos grandes motivos para o interesse em um documentário radiofônico sobre a música nas danças e folguedos do folclore sergipano dá-se, principalmente, pela falta de material deste gênero nos locais de pesquisa sobre folclore.
Também foi observado que dentro desta magia que faz dos brincantes (nome dado aos participantes dos grupos) histórias vivas das danças e folguedos do folclore sergipano, há fatos que merecem ser discutidos. Primeiro é a preocupação, principalmente de alguns municípios do interior do Estado, da conservação dos grupos nas escolas. São os chamados Grupos de Projeção, que assim são chamados porque não têm as características da Declaração de Princípios sobre a Conceituação do Fato Folclórico atribuídas pelo Congresso Internacional do Folclore, realizado em Buenos Aires em 1960. Segundo esta Declaração, as principais características do Folclore são: popularidade, ser anônimo e tradicional. Os Grupos de Projeção não têm estas características, mas são formados pela comunidade, nas escolas para crianças e adolescentes e centros sociais. Isto foi observado em Japaratuba, durante o Encontro Cultural da cidade, onde alunos da Escola Municipal Ademar de Queiroz apresentaram um dos únicos grupos de Maracatu de Sergipe sob a orientação de Dona, uma das poucas “mestras” vivas que luta para que este tipo de folguedo não seja extinto do Estado. Lá também encontramos o Cacumbi do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), formado por crianças e adolescentes. No município de Laranjeiras, há o Reisado Sagrado Coração de Jesus que é formado por pessoas da terceira idade e foi criado pela Secretaria de Ação Social de Laranjeiras.
O segundo ponto observado e mais preocupante é a extinção de grupos tradicionais com a morte dos mestres. Foi o que aconteceu recentemente em São Cristóvão com as Caceiteiras depois da morte de Dona Biu, e a Chegança com a morte do Seu João de Cota. Estes são apenas dois exemplos, mas, muitos grupos no estado foram extintos com a morte dos mestres. Procurei também, neste documentário homenagear a música de Dona Lalinha, ícone do Reisado de Laranjeiras, cuja obra foi lançada em CD. O reisado é, geralmente, dançado ao som do triângulo, zabumba e sanfona, mas Dona Lalinha incorporou o cavaquinho que foi tocado por ela até a sua morte.O Reisado de Lalinha ficou por três anos desativado, hoje é comandado por Soro e composto por dezesseis jovens.
Este documentário não abrange todos os grupos folclóricos de Sergipe. Exemplos são utilizados para mostrar as características de cada um, com uma linguagem simples e muita música para que as danças e folguedos sejam muito mais do que apreciadas, mas compreendidas.
III - OBJETIVOS
“A Educação pode encarar o Folclore de duas maneiras: como informação e como formação. Ou seja, como ilustração ou fonte de dados ou como disciplina conduzente à integração da personalidade.” (Paulo de Carvalho Neto)
A opção em fazer um documentário radiofônico sobre a música nas danças e folguedos do folclore sergipano, é uma forma de levar os ouvintes a prestar mais atenção nas músicas, ou seja, quem assiste a uma apresentação folclórica em vídeo ou pessoalmente se encanta com as evoluções e coloridos dos ornamentos e não presta atenção no que as letras das músicas falam, qual a finalidade daquela brincadeira, a quem louvam, os rituais de pedição, evolução e despedida dos folguedos, ou simplesmente as letras das danças como dos Bacamarteiros, por exemplo, que no dia vinte e quatro de junho, homenageiam a São João, com seus tiros de bacamarte e cantigas de louvação, além dos instrumentos utilizados por cada grupo. Assim, procurei mostrar as influências européia e africana nas músicas dos grupos. Podemos citar a Chegança, que tem como tema a guerra entre mouros e cristãos na antiguidade; também temos a Taieira, grupo de forte característica africana e religiosa que louva a São Benedito e N. Sra. do Rosário, tocando querequexés (instrumento de percussão) e tambores, ou o Pastoril com a influência direta dos vilancicos (músicas natalinas) espanhóis, muitos de caráter profano e ainda o Reisado, com o legado ibérico. Estes são apenas exemplos dessa herança colonial que está presente em quase todas as danças e folguedos do nosso folclore, como mostra o documentário.
Diante da coleta de material sonoro durante as apresentações dos grupos e das poucas gravações que há disponíveis, procurei mostrar um documentário rico em recursos sonoros, para ser utilizado, principalmente nas escolas, através das aulas em que a cultura popular possa ser discutida com crianças e adolescentes, que a significação das músicas nos folguedos desperte a curiosidade nos alunos para conhecer e valorizar a cultura popular do seu estado, que o conhecimento da história, e do enredo dos grupos desperte o interesse em prestigiar as apresentações e estimular, nos professores, uma prática pedagógica que insira a vivência dos alunos com o folclore.
A cultura popular é um dos traços marcantes para diferenciar uma sociedade. O folclore é a alma de um povo, pois reflete de maneira simples, mas riquíssima, como esta sociedade foi criada, seja na formação profana ou religiosa. Também é intenção deste projeto, mostrar como a colonização do Brasil influenciou a cultura popular, em especial os grupos folclóricos de Sergipe.
Por fim, resgatar a memória de Mestres de grupos já falecidos e que foram de grande importância para a cultura de Sergipe. É o caso do Reisado do município de Laranjeiras, que durante muitos anos foi conduzido por Dona Lalinha, que com seu cavaquinho, deu um significado especial para a brincadeira.
IV – LINGUAGEM DO DOCUMENTÁRIO
“A comunicação no rádio é limitada, por contar apenas com o som. O que requer uma compensação na linguagem nele empregada; em contrapartida, o rádio leva a vantagem de estar em toda parte. Esse alcance impõe um compromisso cultural, num sentido amplo, e promove a valorização da nossa língua, de modo particular.” (Maria Luiza Porchat)
É preciso que o ouvinte “veja” a informação através das palavras. Foi com este objetivo que a linguagem do documentário foi baseada.
A idéia foi usar uma linguagem clara, de fácil entendimento e com uma preocupação didática de prender a atenção do ouvinte. Isto porque as pessoas estão acostumadas a “vê” o folclore e não “ouvir”.
A linguagem é, acima de tudo, explicativa. Isto é evidenciado com a preocupação em esclarecer os termos mais específicos do folclore, a narração das estórias dos grupos, usando, muitas vezes, a repetição para reforçar o grupo que está sendo exposto.
Mas a linguagem é reforçada pela interpretação. Usei dois locutores para dar mais dinamismo ao documentário e não tornar cansativo. Com uma interpretação alegre, “viva” o documentário começa “pedindo licença para entrar” e convidando o ouvinte a participar da festa da cultura popular sergipana, despertando, assim, a curiosidade. A música característica Boi de Reisado de autoria de Sena e Sergival, já dá a noção de como vai ser o ritmo da “brincadeira”.
A participação de Cheiroso, personagem de Augusto Barreto do grupo teatral Mamulengo de Cheiroso, mostra o quanto uma música pode aparecer com diferentes letras, muitas vezes, sem perder o enredo.
A explicação da diferença entre dança e folguedo é fundamental para melhor entender os grupos, por isso, esta explanação é feita no início de documentário. Os folguedos são os primeiros a serem apresentados. Depois vêm as danças.
O final do documentário faz uma referência à despedida dos folguedos, pedindo licença para se retirar e anunciando que chegou a hora de ir embora.
V – METODOLOGIA
Para a montagem deste documentário foram utilizadas em sua metodologia as seguintes etapas: exploratória (levantamento de material bibliográfico e áudio); pesquisa de campo com a gravação de apresentações, entrevistas com Mestres de grupos e folclorista, concepção do roteiro de gravação, gravação em estúdio, edição e montagem final do relatório.
Diante da dificuldade em encontrar material de áudio dos grupos procurei várias pessoas que trabalham com a cultura, entre elas a professora Aglaé Fontes de Alencar, o ator Lindolfo Amaral e o escritor Araripe Coutinho. Com estes contatos, obtive informações para pesquisar o material que já tinha sido publicado pelos órgãos de cultura. Na Secretaria de Educação do Estado encontrei Cds com músicas do Reisado de Dona Lalinha e as Taieiras conduzidas por Dona Lourdes do município de Laranjeiras, a Chegança conduzida por Paulo Ferreira e a Zabumba do Grupo São João chefiada por João Félix dos Reis, ambos do Município de Lagarto. Além disso, mais nada foi encontrado. Parti para a pesquisa de Campo. Fui aos encontros Culturais de São Cristóvão e Laranjeiras para obter gravações dos grupos durante as apresentações. Para isto usei um aparelho de MD (mini disk) portátil. As Gravações dos Encontros Culturais de Pirambú e Japaratuba foram adquiridas com o material de arquivo da TV Caju, cujas gravações também acompanhei. Com o material sonoro em mãos, mas sempre com a pesquisa bibliográfica em paralelo, comecei a elaborar o roteiro.
É importante destacar que este material, por ser experimental, é apenas o esboço de um projeto que tem por objetivo fazer documentários com os grupos individualmente.
VI – CONCLUSÃO
Segundo a Antropóloga Rita Amaral, em sua tese de Doutorado intitulada “Festa à Brasileira”, o significado da festa que hoje é refletida, não só na dança como também na música folclóricas, tem a conotação da influência religiosa em costumes pagãos da sociedade brasileira. O ato de louvar através do canto e dança, é uma forma de “inserir” nos costumes da sociedade a louvação aos santos na forma primitiva do povo, sem precisar ir a templos e oratórios, ou seja, é um modo particular de adoração.
“O período colonial que vai dos séculos XVI a XVIII, por sua vez, engendrou um conjunto de instrumentos articulados para preservar o sistema absolutista, tendo nas festas um dos exemplos mais espetaculares e persuasivos. Segundo José Antônio Maraval, citado por (Maraval apud Del Priore, 1994:15), a festa barroca como prática de poder não só deixava o cotidiano em suspenso como tornava mais suportável o trabalho e as penalidades impostas aos que se submetiam ao Estado metropolitano. Espelho das formas modernas de governo, a festa era um meio de instituição política e manifestação do poder crescente do Estado português”.
Ver nota
A colonização, de fato, foi decisiva para traçar o perfil da cultura brasileira. No entanto, quem determina a cultura do povo são as tradições. Em Sergipe, a cultura popular é de uma riqueza impressionante, em cada cidade visitada, em cada material pesquisado se observa a diversidade em cada grupo, todos tem uma característica própria, até quando se trata do mesmo tipo de dança ou folguedo.
É uma aprendizagem constante. Muito, ainda, tem que ser explorado, pesquisado, preservado. A memória dos grupos corre riscos, seja pelo descaso do poder público em dar condições de sobrevivência ao patrimônio da cultura popular, seja pela falta de conhecimento de grande parte da população.
É preciso que o conhecimento saia do rol dos intelectuais, que os Encontros Culturais destinados a valorizar a cultura popular não trate os grupos como atrações para turistas, é preciso que as escolas ensinem que o folclore é a identidade de um povo.
A musicalidade destas pessoas não nasceu em escolas, no entanto, a riqueza poética e melódica é facilmente observada nos cantos de bendito, de pedição de sala, de despedida, ou até mesmo nos cantos puxados pelo tirador de versos.
Enfim, o documentário radiofônico está aí para levar aos quatro cantos de Sergipe, a todas as escolas, o conhecimento da música dos grupos mais importantes do Estado. A influência direta da colonização, o retorno à religiosidade das etnias que compõe o nosso povo. A fantasia das lutas e guerras imaginárias que sempre acabam em paz e muita alegria. É nosso desejo contribuir, de alguma forma, para que a cultura popular de Sergipe seja preservada e, principalmente, respeitada.
ANEXO
SÃO GONÇALO
O São Gonçalo é uma dança de origem portuguesa e apareceu no Brasil em 1718, na Bahia. O folguedo é inspirado na vida de São Gonçalo que viveu na cidade de Amarante. Conta-se que o frade dedicou a vida a pregar a lei de Deus. Como era alegre, tocava viola e dançava. Ao conhecer algumas mulheres que eram prostitutas, ajudou-as a mudar de vida e não pecar. Assim São Gonçalo dançava com as mulheres para que esquecessem a vida que levavam. Conta-se também que São Gonçalo era marinheiro, por isso o chefe do folguedo pó “patrão” se veste com traje de oficial da marinha.
A única figura feminina do folguedo é a “Mariposa” que carrega a imagem de São Gonçalo.
Os outros integrantes do grupo representam as prostitutas salvas pelo Santo.
O grupo registrado no documentário é do povoado Mussuca do município de Laranjeiras.
CHEGANÇA
A chegança é um folguedo de origem européia trazido para o Brasil pelos colonizadores. É considerado um auto popular do ciclo natalino e desenvolve temas referentes à vida do mar. A Chegança é composta por jornadas, o momento culminante é o combate entre mouros e a marujada cristã. Sendo os cristãos vencedores do combate, os mouros são batizados na fé cristã.
Como a Chegança está ligada às aventuras no mar, os personagens deste folguedo se vestem como marinheiros e oficiais.
A apresentação oficial da Chegança gasta muitas horas e os brincantes usam com instrumento básico o pandeiro.
A Chegança tratada no Documentário é a do município de Lagarto.
CACUMBI
O Cacumbi é um folguedo que vêm da variação de autos e bailados, como as Congadas, Guerreiros e Reisado. Tem como referencial a luta entre rei negro e rei indígena.
O Cacumbi, com o passar do tempo, perdeu sua ação dramática e se transformou em uma manifestação com um bailado alegre e rico.
O ponto alto de sua apresentação é a festa de Reis no mês de janeiro. O louvor a São Benedito sempre marcou a devoção do grupo, como todo folguedo de origem afro.
O Cacumbi existe nas cidades de Riachuelo, Laranjeiras e Japaratuba.
A dança em dois cordões se transforma numa cadeia ritmada que tem característica de uma dança guerreira, tamanha é a força do batuque. Os instrumentos que acompanham o canto são feitos de madeira, couro e alguns de lata.
REISADO
O Reisado é um folguedo com uma representação teatral muito forte. Originário de um auto em louvor ao menino Jesus, Maria e José, tem influência portuguesa. Hoje já apresenta caráter profano. O grupo se apresenta em forma de cordões, com melodias simples que incluem cantos de Benditos. Apresenta-se com trio formado por sanfona, triângulo e zabumba.
Tem como principais figuras o Mateus, responsável por comandar a brincadeira e Dona Deusa ou Dona do Baile, que carrega o estandarte do grupo e usa um apito para comandar a jornada.
O Boi é um elemento de destaque no grupo. Quando este personagem entra, é o momento da dramaticidade do folguedo. Depois dos diálogos, o boi é morto para tristeza de Dona Deusa. O grande momento da tragédia do boi é a “partilha” onde os amigos levam as melhores partes e os inimigos o resto. Mas o Boi acaba sendo ressuscitado para alegria de todos.
TAIEIRA
A Taieira é um folguedo de caráter extremamente religioso. Louva a São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Na festa de Reis, no mês de janeiro, a rainha das Taieiras é coroada na igreja.
Segundo estudiosos, a Taieira é uma ramanescência das “Talheiras”, dança em que era comum o uso de talhas na coreografia e no ritual.
O seu registro no Brasil data do século XVIII e a influência africana é muito clara, não só pela louvação aos santos protetores dos negros, como pelos cantos.
A presença afro-brasileira, desenvolvida pela Taieira do município de Laranjeiras, registrada no documentário, começou com a Mãe-de-Santo Bilina que chefiou as Taieiras por mais de cinqüenta anos. Com a sua morte, Dona Lourdes, afilhada de Bilina, comanda o grupo até hoje.
“Durante os ensaios rezam, cantam benditos, louvam aos santos negros ou orixás unindo assim castigos o catolicismo ao culto Afro. Sendo uma dança de intenção religiosa, deve se apresentar sempre nas festas dos seus santos para que não venham a sofrer castigos “8.
MARACATU
Folguedo ligado à Festa de Reis e com influência africana.
Com sinais de realeza, tem uma indumentária formada por Damas, Vassalos, Embaixadores, Rei e Rainha. O cerimonial das cortes africanas é vivido no Maracatu comum guarda-sol enfeitado de fitas, flores e franjas douradas; neste guarda-sol, os reis desfilam protegidos.
No Maracatu sergipano há os seguintes personagens: Rei, Rainha, Dama do Passo, Calunga (boneca levada por uma brincante que significa, segundo estudiosos, um Orixá ).
No documentário há o Maracatu de Japaratuba, formado por alunos de colégio Ademar Queirós e do povoado Brejão.
BACAMARTEIROS DE CARMÓPOLIS
“Pertinho de Carmópolis, existe um povoado chamado Aguada onde é muito agradável se viver. Lá, há muitos anos, nasceu o grupo cujo nome foi tirado das armas que os homens usavam para defender seu pedaço de terra: os bacamartes. É o grupo Bacamarteiros. Isto foi no início do século passado, quando brancos e negros no período junino, se uniam para ‘brincar’. Eles eram plantadores de cana, de algodão, com mãos cheias de calos mas alma cheia de sonhos. Nas reuniões que faziam, cantavam, dançavam, tiravam versos, tomavam pinga e mostrando sua valentia, atirando com os bacamartes. E para atirar eles tomavam posições desafiadoras, para manter o equilíbrio com a força da descarga de fogo do bacamarte. Só os mais fortes conseguiam o feito. O costume é repetido desde esse tempo, apenas agora em outros períodos do ano. Para dar os tiros uma verdadeira coreografia para posições desafiadoras. Bom é o ‘cabra’ que nem pestaneja com o arrojo do tiro e, dentro da fumaça esbranquiçada, sai como herói.”
Os tocadores usam pandeiro, ganzá, reco-reco e onça para embalar os cantos. A música do Batalhão de Bacamarteiros tem a influência africana, especialmente do Samba de Coco.
SAMBA DE COCO E SAMBA DE PARELHA
O Samba de Coco e Parelha não são considerados folguedos porque não têm uma ação dramática.
O Samba de Coco é caracterizado pelo sapateado forte onde um tirador de versos, acompanhado por um batuque, é respondido pelos demais brincantes.
Em Sergipe há vários grupos de Samba de Coco. O que está registrado no documentário é do município de São Cristóvão.
O Samba de Parelha, também com forte marcação rítmica, é dançado como o próprio nome diz, em “parelha”. O grupo registrado no documentário é do povoado Mussuca, do município de Laranjeiras.
CRONOLOGIA
Dia 10/12/01 – Biblioteca Pública Epiphâneo Dória, onde pesquisei material bibliográfico sobre os grupos e a significação do folclore para o povo. Na biblioteca encontrei material sobre a Taieiria, Reisado, São Gonçalo, Guerreiro, Cacumbi, Maracatu, entre outros.
Dia 15/12/2001 – Festival de Arte de São Cristóvão, onde fiz a gravação do Grupo Guerreiro de Santo Amaro, durante sua apresentação.
Dia 17/12/2001 - Gravação para CD do material em vídeo da TV Caju com apresentação do grupo Maracatu no Encontro Cultural de 2001, no município de Japaratuba
Dia 18/12/2001 – Gravação para CD do material em vídeo da TV Caju com apresentações dos grupos no Encontro Cultural de Pirambú, ocorrido no mês de Março/2001. Foram gravados os seguintes grupos: Bacamarteiros de Carmópolis, Cacumbi, Chegança, Reisado de Marimbondo, São Gonçalo, Maracatu do Brejão, Maracatu de Japaratuba.
Dia 19/12/2001 – Reunião com o professor orientador para definir esquema de trabalho.
Dia 20/12/2001 – Pesquisa bibliográfica Na Biblioteca Central da UFS
Dia 03/ 01/2002 – Entrega do esboço do Relatório ao professor orientador para primeira correção.
Dia 10/01/2002 – Fui a Secretaria de Educação do Estado pegar com a Professora Leila os Cds gravados pela Secretaria do Reisado de Dona Lalinha, Taieira, Chegança e Zabumba de Lagarto.
Dias 11, 12 e 13/01/02 – Encontro Cultural da cidade de Laranjeiras. Lá gravei apresentações dos seguintes grupos: São Gonçalo do Amarante, Samba de Côco e Samba de Parelha ou “pareia”.
Dia 25/02/02 – Conclusão do roteiro de gravação.
Dia 28/02/02 – Entrega do relatório e roteiro de gravação para avaliação do professor orientador.
Dia 13/03/02 – Estúdio de áudio da WG Produções, para gravação da locução do documentário comigo e Thiago Hélcias.
Dia 16/03/02 - Estúdio de áudio da WG Produções, para Edição do documentário.
Dia 17/03/02 - Estúdio de áudio da WG Produções, para finalização da Edição do documentário.
Dia 21/03/02 – Última avaliação de todo o projeto pelo professor orientador.
BIBLIOGRAFIA
ALENCAR, Aglaé D’ Ávila Fontes de. Danças e Folguedos. Iniciação Folclore Sergipano. Secretaria de Estado da Educação. Aracaju, 1998.
ALENCAR, Aglaé D’ Ávila Fontes de. O Folclore e a Educação Musical. Coleção Jackson da Silva Lima. Segrase. Aracaju.
BRITO, José Valfran de. Riachuelo Danças e Folguedos Folclóricos. Coleção Cadernos de Cultura Popular. Ano I, nº 7. Aracaju, 1984.
CHANTLER, Paul e HARRIS, Sim. Radiojornalismo. Summus Editorial. São Paulo, 1998.
FERRARETTO, Luiz Artur e KOPPLIN, Elisa. Técnica de Redação Radiofônica. Sagra-dc Luzzato Editores. Porto Alegre, 1992
NETO, Paulo de Carvalho. Folclore e Educação Editora Forense-Universitária. Rio de Janeiro, 1981.
PORCHAT, Maria Elisa. Manual de Radiojornalismo da Jovem Pan. Editora Ática. São Paulo, 1993.
RIBEIRO, João. O Folk-lore (Estudos de Literatura Popular). Jacintho Ribeiro dos Santos – Livreiro-Editor. Rio de Janeiro, 1919.
CDs
SERGIPANO, Folclore. Zabumba e Chegança. Grupo São José de Lagarto (Zabumba) e Chegança de Lagarto. Produção Secretaria de Estado da Cultura, Aracaju 1976 e 1977.
TAIEIRA, Dona Lourdes Laranjeiras/SE. Produção Secretaria de Estado da Educação do Desporto e Lazer, Aracaju, s/d.
LALINHA, Dona. Reisado. Produção Secretaria de Estado da Educação do Desporto e Lazer, Aracaju, s/d.
SABAU, Reisado do Mestre. Produção independente, s/d.
ALENCAR, Aglaé D’ Ávila Fontes de. Danças e Folguedos. Iniciação ao Folclore Sergipano. Publicação da Secretaria de Estado da Educação. Aracaju, 1998, pág 218